Parte 1
P.O.V Thais
11 de fevereiro, 5 da manhã.
O sol batia na janela. Só assim
eu percebia que tinha amanhecido. Finalmente. Nem sei que horas eu consegui
pregar o olho, mas sei que demorou. Eu não me sentia muito bem. Não me senti
ontem à noite, nem me sinto agora. Hoje é o meu primeiro dia de aula, isso
sempre acontece comigo.
Levantei da cama. Calcei minha
pantufa de morango e fui até o banheiro jogar uma água no rosto. O alarme não
tinha tocado ainda, mas meu instinto me mandou acordar. Enxuguei meu rosto e
fiquei me olhando por uns segundos no espelho.
Meu rosto é redondo. Tem duas
espinhas em minha testa e várias espalhadas pela minha bochecha... sem contar a
quantidade de cravos que tenho espalhados pelo meu rosto. Tenho olhos claros e
cabelos loiros ondulados. Rostinho bonito, mas um corpo nada haver. Sou um
pouco gordinha, não parece, mas tenho um pouco de gordurinhas extras na barriga
e no braço, por isso que só uso blusa que o cubra.
Fui no meu quarto, separei a
farda do colégio, peguei minha toalha e voltei pro banheiro. Me joguei no
chuveiro e deixei que a água caísse sobre meu corpo. Fiquei uns segundos ali
debaixo do chuveiro, pensando em muitas coisas e deixando a água tentar levar
esses meus pensamentos para o ralo.
De uma coisa eu tinha certeza:
eu mudei. Emagreci do ano passado para cá, descolorir o meu cabelo (estava
castanho), voltando a ser loira, e as espinhas e cravos nasceram sobre meu
rosto. Mudei, algo muito notável. Ninguém tinha me visto loira neste colégio...
acho que isso é bom.
Fui até meu quarto, vesti minha
farda, pus o meu tênis branco e preto, peguei minha mochila e desci. Analisando
um pouco mais, me sinto bem... Pelo menos hoje. Me sentia esquisita sempre,
parecendo que alguma coisa estava faltando. Pelo menos, sempre tive essa
impressão. Acho que é só impressão mesmo, não deve ser nada de importante...
Como diz a Gabi, “coisa minha”. Gabi é minha melhor amiga, só pra constar.
Somos muito próximas desde pequenas.
Deixei minha mochila no sofá e
fui até a cozinha. Ninguém tinha acordado. Minha mãe dormiu muito tarde ontem,
preocupada com Daniel, meu irmão do meio, ele parecia estar com febre, então
não conseguiu dormir direito. Fiz de tudo pra não acordar ninguém. Somos cinco:
eu, minha mãe, meu pai, Daniel, o do meio, e Jéssica, a mais velha. Sou a
caçula, quatorze anos, Daniel tem dezesseis e Jéssica tem dezenove. Teria outro
irmão, entre Daniel e Jéssica, mas morreu na hora do parto. Felipe.
Peguei um prato, coloquei meu
pão integral, abri a geladeira, peguei a jarra de suco de limão e o queijo. Pus
queijo no pão e o suco no copo. Sentei-me, comi rapidamente e fui ao banheiro
escovar os dentes.
- Conseguiu acordar, hein.
- Mãe! Me assustou.
- Desculpa, só não queria fazer
barulho pra não acordar ninguém.
- Eu também... Acordei a senhora?
- Não. Já está pronta?
- Estou.
- Vou tomar um banho rápido, tá
certo?
- Tudo bem. Tô aqui na sala.
- Ok.
- Ah. Vou colocar os fones de
ouvido, por tanto...
- Eu não vou te chamar – ela
riu. – Já volto.
- Tudo bem.
Coloquei meus fones brancos e
começou “The Climb” da Miley Cyrus. E meus lábios começaram a mover-se em
sintonia com a música e sua letra: “Eu quase posso ver o sonho que estou
sonhando, mas há uma voz dentro de mim dizendo você nunca vai alcança-lo [...]
Mas eu, eu tenho que continuar tentando, tenho que manter minha cabeça erguida”.
Eu só queria ser uma pessoa
comum, que tem amigos, que gosta de baladas, que quer alguma coisa na vida, mas
parece que isso nunca vai acontecer. Eu não sou notada por ninguém na escola.
Tenho poucos “amigos”, não sou muito conhecida, nem sou bonita... Ou pelo
menos, eu não me sinto assim. Eu só queria poder me olhar no espelho e me
sentir bonita. Estou feliz com o que sou, claro, mas ao mesmo tempo não estou
muito bem porque eu não me sinto bem, não consigo me sentir bem, por mais que
eu tente.
É bom receber um elogio de sua
mãe, claro, ela vai ser sincera. Ela será sincera, mas uma mãe sincera... Não é
como receber um elogio de amiga ou até de uma pessoa que não te conhece muito.
É bom ser reconhecida. Na verdade, não posso falar nada porque nunca fui.
Sempre recebo elogios da minha mãe, do meu pai, da minha irmã, da Gabi... Mas,
é sempre elogio familiar, isso eu sei que tenho, é normal pra mim... Mas, eu
queria ser elogiada de uma forma diferente. Deve ser bom uma pessoa chegar pra
você é falar: “Como você está bonita hoje!” ou então, “Como você é linda!”. Por
isso que não me sinto bem, porque “ninguém” me ver como uma pessoa bonita por
dentro, nem por fora. De preferência, elogios masculinos serão muito mais
bem-vindos.
- Vamos? – minha mãe chega de
surpresa.
- Claro. – digo, pegando a
mochila e saindo.
Abri a porta do carro, sentei e
coloquei o sinto. Ainda com os fones de ouvidos, comecei a pensar como poderia
ser o primeiro dia, mas fui interrompida pela minha mãe.
- Ansiosa?
- Nem um pouco.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não, por quê?
- Você está diferente.
- Diferente como?
- Não sei... Só diferente.
- De um jeito bom.
- Sim. Parece que não está
ansiosa mesmo.
Ficamos em silêncio. Minha mãe
uma hora o quebrará.
- Thais, você nunca falou comigo
sobre namoro, nem garotos... Nada do tipo.
- Oi?
- É filha... Geralmente uma
filha e uma mãe conversam sobre isso, sabia?
- Ahn, tem certeza que quer
falar sobre isso comigo?
- Ué, filha, por quê não? A
gente sempre conversa sobre muitas coisas, mas nunca tocou nesse assunto. – ela
disse, sem tirar o olho do volante.
- Bom, o que você quer saber?
- Está namorando?
- Não!
- E está apaixonada?
- Não!
- É virgem?
- Mãe! Por favor... Chega.
Ahn... Não quero mais falar sobre isso. Chegou na escola. Bem, antes de tudo
saiba que eu sou virgem, tá.
- Ok filha – ela falou rindo da
minha rapidez e embolação ao falar sobre isso. – Te amo.
- Eu também te amo. – disse,
dando um beijo nela.
Sai do carro, acenei e entrei na
escola. Olhando pra todos os lados, pra ver se conhecia alguém, notei muita
gente nova... Finalmente vi a Gabi.
- Chegou hein?
- Demorei?
- Demorou. – Gabi disse.
- Desculpa, minha mãe acordou
mais tarde.
- Tudo bem, mas eu só quero que
você olhe a sua volta e veja a quantidade de meninos lindos, novatos e
procurando alguém!
- Querendo dar uma de cupido
novamente?
- Quem tem quatorze anos e nunca
beijou aqui? – Gabi sussurrou.
- Calada, isso é um segredo! Lembra
que prometemos não tirar sarro sobre isso?
- Lembro sim, mas só estou
tentando usar algum argumento convincente para você tentar ficar com
algum
novato aqui...
- Relaxa, Gabi, não adianta
nada. Eu não quero pensar nisso tão cedo.
- Duvido um gostoso chegar aqui
e você não olhar.
Embarram em mim.
- Desculpa! – ele disse. Seu
cabelo era liso e castanho bem claro, seus olhos eram claros e estava bem
queimado do sol. Novato.
- Tudo bem. – falei. Ele saiu.
- Ele é gostoso. Tá vendo? Tá
hipnotizada com o excesso de gostosura do menino, hein. Calma, cautela... Ele
é
novato, temos que ser discretas.
- Você é maluca. Para com isso,
ele se esbarrou em mim e pediu desculpas, por favor.
- Aham. Sei. Ok. Aqui estou eu
fingindo acreditar.
- O portão abriu.
- Sei bem quando você muda de
assunto, Thaís. – ela diz, enquanto a puxo para entrarmos.
- Quer calar a boca?
- Epa! Olha a agressividade...
- Cala logo essa boca! – eu
falei, dando um beliscão na tagarela.
Bom, entrei na sala... Tudo ia
começar novamente. Ver as mesmas caras, estudar o tempo todo, Gabi enchendo meu
saco, né.
- Opa! Olha só quem está na
nossa sala?
- Quem? – bastou eu dizer e
olhar o fundo da sala, lá estava ele. O menino que se esbarrou em mim mais
cedo.
Será que é algum tipo de
perseguição? Porque se for, melhor parando por ai, que eu não quero nada não,
viu.
Parte 2
Eu não sei qual o problema da
Gabi. Todos os novatos ela quer me empurrar, mas esse novato, empacou mais, né,
foi o que mais chamou a atenção dela. Se ela gostou tanto assim dele, porque
não fica pra ela, ao invés de ficar empurrando pra mim? Não consigo entender a
cabeça dessa menina.
- Ah, por favor, Gabriella.
- O que eu fiz?
- Está muito em cima desse
menino, né atrevidinha? Está empurrando ele demais pra mim... E eu não
quero
nada com ele, tá. Você que fica
ai com suas conversinhas. Parece que gostou mesmo dele. Se gostou tanto, porque
empurra pra mim e não fica logo com ele?
- Thais! Se liga, eu sou
sua amiga e quero o melhor pra você... Achei o cara bonito e te dei uma
sugestão, fiz umas brincadeiras...
- Mas, isso é todo o ano
Gabriella!
- A culpa é minha se todo o ano
tem um gostoso novato?
- Mas, todos tem que ser pra mim?
- Não todos né sua gulosa, vai
com cautela que eu quero alguns também...
- Ei! Eu não quero ninguém não,
fica com todos pra você, sem briga nenhuma, não precisa discutir.
- Ai que ótimo. Agora chega né?
Você está estressadinha demais pro meu gosto...
- Parou né?
Sentei em uma cadeira bem
distante do novato. O professor entrou e a partir daquele momento não sei de
mais nada que aconteceu porque meus olhos só estavam focados nos professores.
Não que sejam gatos, nem nada, mas eu queria realmente prestar atenção, apesar
de ser o primeiro dia, eles sempre dão umas dicas, então melhor ficar atento.
11 de fevereiro, 09:40 da manhã
Pra chegar o intervalo, demorou
pra caramba, mas finalmente chegou. Hora de colocar o papo em dia com as
amigas, conversar muito e comer né. Bom, eu e Gabi sentamos no mesmo lugar de
sempre, perto da cantina. Ficamos ali olhando a vida das pessoas, no maior
tédio, a maioria das vezes conversando ou comendo.
- E ai, achou mais algum gato?
- ‘Mais algum’?
- Um você já achou...
- Ah não. Essa conversa de novo,
Gabriella.
- Desculpa, eu só queria falar
sobre alguma coisa e pensei nisso.
- Pensamentos sem criatividade
nenhuma os seus, hein.
- Ha-ha-ha, obrigada. Como se
você fosse a pessoa mais criativa do mundo né.
- Engraçadinha.
- Vamos até o bebedouro?
- Tá, pode ser.
Fomos até o bebedouro e me viro.
Pronto. A merda está feita. Tem Ovomaltine até na minha calcinha. Que ótimo. O
novato gostoso que a Gabi está empurrando pra mim deixou Ovomaltine no meu
cabelo. Agora que eu serei zoada pela eternidade.
- Ficou maluco? – gritei.
- Me desculpa, eu não te vi!
- Vê se olha pra onde anda,
então! Olha só o que você fez, parabéns.
- Acha que eu fiz de propósito?
Eu não te vi, eu já pedi desculpa.
- Desculpas não me limpa, tá
entendendo?
- Não precisa ser tão ignorante
comigo, eu já disse que não te vi!
- Custa olhar para os lados
quando se estar com um copão de milk-shake na mão?
- Me desculpa, eu me distrai!
- Já disse que desculpas não limpam
a bagunça. Agora olha pra minha situação e diz se isso é legal pra mim.
- Não, não é legal, mas dá pra
me desculpar? Eu não te vi mesmo, juro.
- Não, não dá pra te desculpar!
- Você é muito ignorante.
- Você é um idiota que sai por
ai derramando milk-shake.
- Parou, Thais?
- Cala a boca, não se mete
Gabriella!
- Thais, venha comigo agora.
Fomos pro banheiro. Limpei um
pouco da sujeira do meu cabelo, mas fui obrigada a pegar uma roupa seca numa
salinha perto da secretaria. Aquele idiota ia pagar caro. Odeio esse novato!
- Qual o nome dele? – Gabi
perguntou.
- O nome de quem?
- Como “de quem”? Do novato né.
- Acha que estar com milk-shake
na calcinha é legal? Ai você vem me perguntar se eu sei o nome dele? Por
favor...
- O nome dele é Victor.
- Eu não quero saber o nome do
novato que derramou milk-shake na minha roupa, eu quero tirar esse cheiro de
Ovomaltine de mim.
- Tá, deixa eu lhe ajudar. – ela
disse.
Bom, depois desse “acidente” de
propósito, fui pra aula. Fiquei a aula inteira, como sempre, prestando atenção
e não dando a mínima pra aquele idiota.
11 de fevereiro, 12:00 da tarde
A aula acabou e eu estava
sentada com a Gabi conversando sobre muitas coisas. Eu estava fazendo de tudo
pra ela não tocar naquele nome. Victor.
- Passou a raiva dele? – eu
sabia. Não tem uma hora que a gente converse que ela não toque no nome desse
menino. Estou muito ferrada nas mãos dela.
- Eu odeio o Victor.
- Não odeia.
- Odeio sim, Gabriella.
- Foi sem querer.
- Papo furado. Você ainda
acredita. Besta.
- Para! Deixa de besteira sua
boba.
- Besteira nada! Tinha
Ovomaltine pelo meu corpo inteiro.
- Não foi porque ele quis, sua
idiota!
- Foi sim, ele queria me fazer
passar vergonha na frente de todo mundo. Ele não presta.
- Dá pra calar essa boca? Ele
nem te conhecia, nunca tinha falado com você, ele é novato, esqueceu? Como ele
queria te ferrar, fazer você passar vergonha na frente de todo mundo, sem te
conhecer, sem saber quem você é.
- Bobagem sua. Ele sabia quem eu
era sim. Sei lá porque ele fez isso, mas também não quero saber de mais nada.
- Você o ama.
- Tá maluca? Deus é mais. Com
certeza odeio esse garoto mais que tudo.
- Aham... Conta outra.
- Odeio sim. Ele faz as coisas
de propósito e eu vou te provar que não amo ele.
- Prove então. – pensei por uns
dez segundos. Tive uma ideia em mente, mas é muito besta.
- Vou escrever uma lista. 101
motivos para odiar você. Conforme as atitudes dele, vou enumerando. Tenho
certeza que encontro mais de cem.
- Está exagerando. – Gabi falou,
me olhando esquisito.
- Não estou. Eu vou provar que
não o amo, como você diz! Vou provar que o odeio e que ele só faz as coisas pra
me prejudicar.
- Você ficou maluca.
- Não fiquei não. Eu vou achar
razões para odiar o Victor de acordo com a minha lista: 101 motivos para odiar
você.
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